Eleitores votam na 71ª Zona Eleitoral, no Colégio Liceu Nilo Peçanha, no centro de Niterói.

Além da esquerda e direita: o que move as mulheres brasileiras em relação à política

Pesquisas no Brasil e na América Latina mostram que mulheres jovens apoiam mais pautas progressistas do que os homens, com diferenças marcadas por classe, raça e condições de vida

Por Amanda Stabile

15|01|2026

Alterado em 16|01|2026

Mulheres jovens da América Latina e do Caribe tendem a se identificar mais com pautas progressistas do que homens da mesma faixa etária, especialmente em temas ligados a direitos sociais, igualdade de gênero e diversidade sexual. A conclusão é do estudo Juventudes: Asignatura Pendiente (2025), da Friedrich Ebert Stiftung, que ouviu cerca de 22 mil jovens de 15 a 35 anos em 14 países da região, entre eles Brasil, Argentina, México, Chile e Colômbia.

A análise dos dados revela alguns padrões consistentes:

  • Mulheres jovens se identificam mais com pautas progressistas do que homens: em toda a região, mulheres jovens demonstram maior proximidade com agendas ligadas a direitos sociais, igualdade de gênero e diversidade sexual, quando comparadas aos homens da mesma faixa etária;
  • Há maior apoio feminino a políticas públicas e agendas de direitos: entre as mulheres jovens, aparece maior apoio a propostas como educação e saúde públicas gratuitas, proteção do meio ambiente, educação sexual e reconhecimento de direitos da população LGBTQIA+. Esse alinhamento se mantém quando os dados são analisados por gênero, ainda que variem conforme país, classe social e contexto local;
  • No Brasil, a diferença de gênero aparece também no posicionamento ideológico: no recorte nacional, 38% dos jovens se posicionam à direita, 44% se declaram de centro e 18% à esquerda. A diferença de gênero é clara: 20% das mulheres jovens dizem se identificar com a esquerda, contra 16% dos homens, uma distância de quatro pontos percentuais.
  • A identificação com pautas progressistas não se traduz automaticamente em vínculo partidário: o estudo mostra que, apesar da maior afinidade com agendas de direitos, a maioria dos jovens relata baixa confiança em partidos políticos e insatisfação com o funcionamento da democracia, ainda que reconheça que ela é o melhor sistema de governo;
  • A divisão clássica entre esquerda e direita é insuficiente para explicar as juventudes: mesmo entre mulheres jovens, que em média se mostram mais próximas de valores progressistas, aparecem posições conservadoras em temas ligados à família, à religião e aos costumes, indicando um cenário político marcado por contradições.
  • Novas formas de engajamento ganham centralidade: segundo os pesquisadores, compreender o engajamento juvenil exige olhar para além do voto e dos partidos. Protestos, ativismo digital e outras formas de participação não institucional aparecem como caminhos relevantes de ação política, especialmente entre jovens que se sentem pouco representados pelas instituições tradicionais.

São consideradas posições progressistas aquelas associadas ao apoio à educação e à saúde públicas, à igualdade de gênero, à educação sexual, aos direitos da população LGBTQIA+ e ao papel ativo do Estado na redução das desigualdades, enquanto posições conservadoras aparecem em respostas que defendem valores tradicionais ligados à família, à religião e aos costumes, além de maior resistência a pautas de gênero e diversidade.

Para os pesquisadores, os dados indicam um cenário político marcado por contradições, em que gênero é um fator central para entender o engajamento juvenil, mas precisa ser analisado junto às desigualdades sociais, condições de vida e novas formas de participação, como protestos e ativismo digital.

O que pensam as mulheres brasileiras

Uma pesquisa feita no Brasil ajuda a entender por que muitas mulheres apoiam pautas progressistas, mas nem sempre se reconhecem nos rótulos da política tradicional. O estudo Mulheres em Diálogo (2025), coordenado pelo Instituto Update e sistematizado no Mapa Narrativo Entre Nós, ouviu mulheres de diferentes regiões, idades, classes sociais e visões políticas para identificar o que as aproxima — e o que ainda gera conflito na defesa de direitos.

A escuta revela que, apesar das diferenças, há mais acordo entre as mulheres do que costuma aparecer no debate público, especialmente quando os temas partem da vida cotidiana:

  • Igualdade salarial é um consenso amplo entre as mulheres: entre as entrevistadas, 94% defendem que homens e mulheres devem receber o mesmo salário para funções equivalentes. A defesa aparece associada a ideias de justiça, dignidade e reconhecimento do trabalho, inclusive do trabalho invisível do cuidado;
  • Segurança é uma prioridade compartilhada: para 77% das mulheres, a segurança aparece como uma das principais preocupações. A demanda não se restringe à violência urbana, mas envolve o direito de circular, viver e criar filhos sem medo, como resume uma das falas registradas no estudo: “Toda mulher tem um sonho: viver sem medo”;
  • Há apoio à ampliação da presença feminina na política, mas com nuances: o levantamento mostra que 85% das mulheres apoiam uma maior representatividade feminina nos espaços de decisão, ainda que muitas não se reconheçam nos partidos ou na política institucional. A presença de mulheres é vista menos como disputa ideológica e mais como forma de levar prioridades reais para onde as decisões são tomadas;
  • As principais divergências aparecem nas pautas morais: diferenças de opinião se concentram sobretudo em temas ligados a costumes, religião e papéis de gênero. Ainda assim, o estudo indica que essas divergências não impedem o diálogo, desde que a conversa parta de valores comuns;
  • Muitas mulheres fazem política no dia a dia, mesmo sem se reconhecer como “políticas”: o estudo aponta que cuidar da família, organizar redes de apoio, lutar por serviços básicos, saúde, creche ou transporte também são formas de ação política. A distância em relação aos rótulos e instituições não significa desinteresse, mas uma forma diferente de participação.

Segundo as pesquisadoras, reconhecer esses consensos e compreender as divergências é fundamental para ampliar a participação das mulheres na vida pública. Criar pontes a partir de valores compartilhados — como cuidado, justiça, dignidade e segurança — aparece como um caminho possível para fortalecer a democracia e a presença feminina nos espaços de decisão.

Condições de vida e identificação política

Os dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB 2022) ajudam a aprofundar a compreensão sobre o posicionamento político das mulheres ao mostrar que gênero, por si só, não explica as diferenças de engajamento. A pesquisa foi realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CESOP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com o Comparative Study of Electoral Systems (CSES), coordenado pela Universidade de Michigan, e é uma das principais bases acadêmicas sobre comportamento político no país.

Aplicado entre novembro e dezembro de 2022, o ESEB ouviu 2.001 eleitores a partir de 16 anos, em todas as regiões do Brasil. As mulheres representam 52,7% da amostra. O levantamento coleta informações sobre escolaridade, ocupação, setor de trabalho e situação profissional, variáveis que funcionam como indicadores de classe social e permitem observar diferenças importantes no interior do grupo feminino.

A partir desses dados, é possível identificar alguns padrões no interior do grupo feminino:

  • Condições de vida influenciam mais do que rótulos ideológicos: os dados indicam que a posição política das mulheres é fortemente atravessada por escolaridade e inserção social, mais do que por adesões ideológicas rígidas;
  • Mulheres com menor escolaridade e inserção mais precária no mercado de trabalho tendem a demonstrar maior apoio a políticas sociais, como saúde pública, assistência e programas de proteção do Estado: nesse grupo, também aparece menor rejeição ao papel ativo do Estado na redução das desigualdades. Ao mesmo tempo, essas mulheres recorrem menos aos rótulos de “esquerda” e “direita” para definir sua posição política;
  • Mulheres com maior escolaridade apresentam maior adesão a valores democráticos e maior rejeição a soluções autoritárias: também apresentam maior familiaridade com o discurso político institucional — ainda que compartilhem da desconfiança em relação aos partidos;
  • O engajamento político feminino se organiza a partir do cotidiano: a leitura dos dados sugere que trabalho, cuidado, segurança e sobrevivência aparecem como referências centrais na forma como muitas mulheres se relacionam com a política, o que ajuda a compreender tanto a aproximação com pautas progressistas quanto os limites dessa identificação no campo institucional.

No conjunto, os dados do ESEB indicam que as mulheres não formam um bloco político homogêneo, e que suas posições são construídas a partir de experiências concretas e desiguais, mais do que de alinhamentos ideológicos fixos.

Posicionamento político entre jovens

Um recorte específico desses dados foi analisado no artigo “Gênero, raça e classe dos eleitores jovens conservadores e progressistas”, publicado em 2023 na Revista Agenda Política, que observa jovens de 16 a 29 anos a partir do ESEB 2022 e de dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Os resultados ajudam a entender melhor como gênero, raça e classe atravessam o posicionamento político das juventudes:

  • Mulheres jovens se identificam mais com posições progressistas do que os homens: entre jovens de 16 a 29 anos, 58% das mulheres se posicionam como progressistas e 42% como conservadoras. Já entre os homens jovens, o padrão se inverte: 57% se identificam como conservadores e 43% como progressistas;
  • O conservadorismo juvenil se concentra entre homens, pardos e jovens de menor renda: entre os jovens conservadores, 53% são pardos, 39% são brancos e 8% são pretos. O dado indica que o avanço do conservadorismo entre jovens ocorre sobretudo entre grupos que enfrentam maiores dificuldades de acesso a direitos – o que inclui desigualdades raciais e socioeconômicas;
  • Classe social influencia o posicionamento político: o estudo mostra que jovens conservadores estão mais concentrados nas classes D e E, de menor renda. Já entre os jovens progressistas, há maior presença nas classes C e D. Jovens das classes mais altas (A e B) aparecem pouco na amostra e não concentram o posicionamento político em nenhum dos dois campos.